A Medusa – Pequeno conto

Contos

A Medusa – um pequeno conto

Quando a Raquel nasceu, a sua mãe decidiu que ela não podia ter qualquer peluche, onde se agarrar à noite. Devia enfrentar a noite sozinha, tendo apenas a lua como companhia, ainda que o pai lhe contasse histórias fantásticas, que a poderiam pôr a imaginar, que os monstros existiam mesmo. Sim, porque ela nunca lhe leria os livros que todas as mães leem às filhas, quando elas vêm ao mundo. 

Desde o primeiro momento do nascimento, que a mãe percebeu que Raquel era muito chorosa. Mais uma razão, para não mudar uma vírgula às suas estritas regras, para ver se a criança endurecia o espírito e a alma. As histórias fantásticas e os peluches estavam assim, definitivamente, arredados da sua vida. “Apenas servem para criar filhos mimados e temerosos”, dizia ela para o marido.

O marido, que não concordava com aquela educação, desde cedo começou a contar histórias à filha. A mulher não gostava e aceitava relutantemente a situação. Mas o que ela não suportava mesmo eram os peluches, por isso, sempre que ele comprava um, ela mandava-o para o lixo. Este comportamento deixava a filha muito triste, que não percebia porque é que não podia adormecer à noite com um peluche, como todas as outras crianças.

Uma noite, chovia e trovejava bastante. Raquel sentiu-se sozinha na cama, enquanto ouvia ao lado, a mãe a suspirar por um abraço do pai. Tinha medo de tempestades! Naquela noite, pensou que era uma injustiça adormecer sozinha, cheia de medo, sendo ela uma criança, enquanto a mãe, uma adulta, tinha direito a um abraço numa noite em que não existia lua.

“Pai, porque é que os adultos fazem regras para nós, crianças, mas que não servem para eles”?, perguntou a Raquel no dia a seguir ao pai. Ele ficou muito surpreso com aquela observação e percebeu tudo. Tinha que lhe arranjar um peluche!

O pai foi até uma loja e comprou um peluche em forma de medusa. Quando chegou a casa não foi capaz de ficar indiferente à felicidade da filha quando ela lhe exclamou:

“Que grande que é o mar, pai! Devem existir lá também milhares de medusas!
Depois pensou mais um pouco e disse:
“Se no mar há milhares de medusas, então há lá milhares de peluches!”

A mãe, ao ouvir aquelas palavras, apareceu imediatamente. Enfurecida pela felicidade da filha, pegou na medusa e atirou-a para o lixo! Naquele instante, os seus cabelos transformaram-se em serpentes e o corpo em pedra. Naquele dia, a Raquel dormiu todos os dias agarrada à sua medusa e contava à mãe, feita estátua, como tinha recebido um abraço da lua naquela noite.